quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de Março - Dia Internacional Contra a Discriminação Racial


"O Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 1966, quando se completavam 6 anos do tristemente famoso massacre de Sharpeville, na África do Sul. Nessa data, 69 civis negros foram assassinados pela polícia sul-africana porque protestavam contra as horríveis condições em que viviam os negros sob o regime doentio e violento do apartheid. O ano de 1960 foi palco de protestos e de assassinatos contra pessoas que lutavam contra o racismo não somente na África do Sul, mas também nos Estados Unidos.
Já no Brasil, vigia, naquela época, uma repressão estatal secular que desmobilizava os protestos contra o racismo de um modo que ainda necessita ser compreendido mais profundamente. Aqueles dois países tornaram-se, então, as maiores vitrines mundiais da desumanização das sociedades que geraram violências estruturais contra a população negra e africana no mundo.
Todavia, os racismos antinegros jamais foram atitude exclusiva dessas duas sociedades: todas as nações que colonizaram a África geraram estruturas sociais igualmente desumanizadoras, mesmo quando diferentes umas das outras. E as sociedades da Diáspora Africana no Novo Mundo são ainda todas, independentemente das diferenças dos Estados que as contêm, sociedades racistas.
Infelizmente, não faltou entre nós um ideólogo como Gilberto Freyre, que nos anos 1940 procurou distinguir a colonização portuguesa em Angola e Moçambique da colonização inglesa e também da ocorrida na África do Sul, defendendo a existência de um modo mais cordial de relações raciais nos países africanos de colonização portuguesa.
Essa tese não se sustenta de um ponto de vista histórico, pois a devastação humana foi de porte equivalente em todos os países mencionados. Tentar diminuir a desumanização causada pelo racismo português apenas porque a convivência interracial na África lusófona era supostamente mais branda que no apartheid sul-africano e holandês  é contribuir, de um modo indireto e perverso, para essa mesma desumanização, pois retira compaixão e solidariedade às vítimas da discriminação racial onde quer que elas tenham vivido.
E como nós, brasileiros, entramos hoje no quadro mundial da discriminação racial? Por um lado, seguidores de Gilberto Freyre como os antropólogos Peter Fry e Yvonne Maggie e os jornalistas Demetrio Magnoli e Ali Kamel atualizam esse argumento de um racismo cordial ou inexistente no Brasil levando-o às raias de um revisionismo histórico.
Segundo  os antropólogos, nosso racismo é mais brando do que os demais pelo simples fato de não estar amparado em leis estatais. E segundo os dois jornalistas, a escravidão brasileira não foi exatamente um racismo de brancos contra negros porque havia negros entre os escravistas; e mais do que isso, a sociedade brasileira sequer é racista! O que têm em comum todas essas pessoas que querem negar a intensidade do racismo brasileiro é que são fortes militantes contra as cotas para negros nas universidades.
É preciso sair da disputa abstrata de valores e ideologias e contrastar esses argumentos revisionistas com a situação de extrema exclusão racial no nosso mundo acadêmico: o número de professores negros nas universidades públicas brasileiras, hoje, é menor do que o número de professores negros nas universidades da África do Sul ainda nos dias do apartheid e muitíssimo menor do que o número equivalente nos Estados Unidos em 1960. Para quem serviu, então, essas supostas relações raciais cordiais? Apenas para o grupo branco, que sequestrou para si todos os espaços de poder e riqueza da nossa sociedade. 
O lado mais brutal dessa suposta cordialidade racial aparece nas nossas estatísticas oficiais: o número de negros assassinados no Brasil por serem negros (ou seja, crimes de racismo) nas últimas décadas não é menor do que os assassinatos equivalentes na África do Sul e nos Estados Unidos. De 1966 para cá, assistimos a grandes transformações nas sociedades da África do Sul e dos Estados Unidos e pelo menos uma parte da violência racial que as caracterizava foi pacificada.
A campanha da ONU contra a discriminação racial certamente jogou um papel positivo nessas transformações ao questionar o imobilismo dos Estados e retirar legitimidade às estruturas sociais racistas desses países. Poderíamos, então, utilizar agora como referência de bandeira antirracista da ONU não somente o doloroso evento singular e concentrado de Sharpeville ou a segregação racial norte-americana até os anos 1970, mas também os assassinatos racistas cotidianos de brasileiros negros e a segregação racial extrema que caracteriza as nossas universidades há mais de um século.
Já é hora de colocar o racismo brasileiro, e não apenas o sul-africano e o norte-americano, sob os holofotes do mundo. Desse modo, o dia 21 de março poderá ser ainda mais útil para a nossa luta antirracista, ao mesmo tempo que continuará valendo como referência da discriminação racial que a humanidade inteira deve urgentemente superar."

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário