
"Em tempos atuais, a internet vem se ocupando de uma função: oferecer o que as pessoas precisam de forma imediata. É a tal informação de que se precisa, uma pesquisa acerca de determinado assunto, a verificação das mensagens recebidas, a participação em redes sociais, o uso de recursos midiáticos como jornal, blogs, sites, revistas. Mas o que dizer do sentimento que habita as pessoas, da ansiedade e solidão proporcionais ao uso dessa ferramenta? O fato é que a internet não supre necessidades emocionais.
E, se de algum modo espera-se que ela organize e estruture áreas da vida pessoal, ao contrário, promove complexidade em razão da sua multiplicidade de utilidades. Em tempos atuais há o reflexo de uma espécie de isolamento das pessoas em razão de um ensimesmado jeito de lidar com a vida, em que tudo está disponível num único local. E isso é propagado enquanto vantagem.
Se utilizado como substituição, provoca efeitos desastrosos, seja pela crescente ansiedade existente e pela sensação de solidão, em razão da individualização desse processo; seja no caso daquelas pessoas que estão perdendo em qualidade relacional, suprindo suas necessidades de contato e de atenção, por meio de conversas virtuais e da participação em redes que lhe oferecem praticamente o mundo. Ao trocarem o contato pessoal face a face pelo que ocorre de forma virtual, temos aí a presença da solidão e da ausência de significados e simbolismos reais que partiram da situação presente.
A oportunidade do recurso virtual é a de possibilitar que as pessoas estejam presentes onde não poderiam estar, caso não estivessem utilizando um recurso para isso. Ocorreu uma modificação no modo das pessoas estabelecerem contato e surgiu um novo conceito ampliado da sua participação social. O próprio marketing pessoal, com o qual as pessoas divulgam suas ideias e pensamentos numa escala ampliada, atinge uma abrangência muito maior.
Ao se expressarem para um público cada vez mais diversificado, passam a figurar num cenário cada vez mais amplo, que é público e não mais individual. É o choque dessas realidades que vem tornando o sentimento de solidão e ansiedade presentes numa espécie de esvaziamento do ser humano, enquanto agente da relação. Até então isso ocorria em contatos interpessoais.
As atividades que todos cumprem também assumiram uma proporção maior e, em escala, todo o tempo está ocupado e o homem se ressente de uma forma de “ser” que não mais existe, aquela que presenciava. E a ansiedade toma conta. Pois ele é mais cobrado e é mais exigido dele que corresponda às expectativas. Tudo é muito ágil e, ao mesmo tempo, fugaz, deixando também de ter validade a cada hora que passa. Surge então a noção de que determinada informação já não mais faz sentido, de que uma necessidade foi substituída por outra. As pessoas ficaram ansiosas, pois o que é válido agora já não o é no momento seguinte. Todos querem que algo ocorra agora ou, como costumamos ouvir, para ontem.
Exigem como resultado de uma vida plugada e conectada, destituindo-se do que faz verdadeiramente sentido para a sua vida. A vida precisa ser assimilada e não engolida.
O universo de representação do presente modificou-se, assim como a realização pessoal do homem, dando forma a um novo jeito de operar a própria vida. E, com isso, a sensação do tal esvaziamento de seu ser. No entanto, vale ressaltar que essa sensação é uma adequação dos tempos modernos pedindo passagem para uma transformação da vida cotidiana, que pede essa multiplicidade do ser, um superaproveitamento.
Os feitos do homem da era atual foram facilitados pelo acervo disponível de informações. Agora, ele tem que aprender a gerenciar toda essa dinâmica, e o que está difícil é lidar com o presencial, com o mundo que se esgota no cansaço das pessoas, na medida em que são cada vez mais requisitadas. As pessoas podem se adequar a viver sem prejuízo e extrair o que do mundo real e virtual podem lhe oferecer de benéfico."
Por Luiza Ricotta, psicóloga
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